Titãs - Comida
Foi muito antes de Radiohead ganhar o mundo com Fake Plastic Trees, clipe genial para uma música genial de crítica a sociedade de consumo. Em 1987, Titãs lançou por aqui a canção Comida no álbum Jesus não tem dentes no país dos banguelas. Este videoclipe deve ser da mesma época. Há uma crítica no vídeo ainda mais incisiva do que no Radiohead. Vai mais direto ao ponto da alienação. Sem contar o conteúdo da canção, que é outra obra artística de grande força. O video é irreverentemente subversivo, como o é a arte brasileira em boa medida. Subversivo e chistoso ao mesmo tempo. Sobre o talento e a criatividade presentes, deixo esta avaliação ao juízo musical e de linguagens artistícas de cada um. Mas não é necessário ter cursado alguma faculdade de arte ou de crítica para reconhecer sua qualidade, a meu ver, tão genial quanto o é a canção e o videoclipe da banda Radiohead. Diante dessa ordem das coisas em nosso território, desse establishment, minha pergunta é: que caminhão de poeira, que brigada de incêndio da floresta, tão eficaz passaram varrendo todo o alarme, deixando-nos a comer o pó de uma sujeira que não é a nossa, mandando para o escambau todo o potencial crítico e subversivo da cultura, relegando-nos ao papel tão insignificante de piadistas dos fins de semana no churrasco da família ou dos amigos? A verve dos brasileiros anda calada. Sua criatividade está restrita a esfera do capital. Se você pedir a um brasileiro que invente um ventilador ainda mais eficaz para este verão ele o fará, e se puder lucrar com isso, se verá ainda mais estimulado por quem o cerca. Ou se você perguntar a um brasileiro as ideias que ele tem para o comércio ou para um evento festivo, ele lhe dará mil. Tem muitas na ponta da língua. Mas não é destas ideias que eu falo…
As ideias que eu digo, aquelas proibidas do espaço público, foram abafadas pelos meios de comunicação tradicionais que nos governam a bastante tempo. Representados que somos pela Rede Globo de comunicação e outras emissoras de televisão. Outro fator importante para o baixo nível cultural/civilizatório de nossa sociedade de hoje é a pouca escolaridade. A capacidade de indignação e de protesto, que também são valores de cidadania, foram podados - cabe aqui o termo ‘castrado’ próprio da neurose. A partir dos anos 90, a mídia - jornalística e de entretenimento - vive uma relação de primeira amante com o Estado de direito, cuja esposa, é o capital neo-liberal da sociedade globalizada. O Estado como a força, a virilidade, representa o aspecto de uma masculinidade falha, fracassada, que busca encarnar a Lei fazendo uso da força, o seu dispositivo mais ultrapassado. Já a economia nos aliena tão bem uma vez que é o motor pulsional de nossos desejos. Engana-nos com seus objetos de consumo. Cada um deles promete ser o objeto de nossos desejos. E quem comunica isso a nós? Quem transmiste esta mensagem como se verdade fosse? Os meios de comunicação. Eles tomam a palavra e juram falar por todos.
Por fim, a moral desta fábula é: reconhecer o passado é se livrar das angústias que imobilizam nosso presente. Não se trata de esquecê-lo, recalca-lo, delegar ao outro que conte nossa história. Trata-se de encará-lo, mesmo que para isso, para este acerto de contas, muita gente e muitas ideias que você achava que fossem suas, fiquem para trás, percam seu crédito, seu valor. É preciso escolher a quem amar, sempre.
Notes
-
really256gp a ajouté ce billet à ses coups de cœur
-
mentedovilao a reblogué ce billet depuis ex-intimo
-
sabrinaventura a ajouté ce billet à ses coups de cœur
-
indubio a ajouté ce billet à ses coups de cœur
-
ex-intimo a publié ce billet